segunda-feira, 20 de maio de 2013

A vida dele (S).



era um sobradinho inglês, a cozinha ficava no andar superior e da janela da pia dava para ver a cidade toda, cheia de suas casinhas grudadas umas nas outras, suas praças e sua brisa fria de noite invernal. Do lado de dentro da casa fios de fumaça emergiam da caneca enquanto o rapaz admirava o céu noturno timidamente pontilhado.
O rapaz era bicho noturno, tinha hábitos pós meia-noite e fazia sentinela cotidiana ali, na cozinha de seu apartamento modesto em um bairro do subúrbio.
Deixando a parte o lugar mágico no qual o rapaz morava, deve-se analisar melhor a causa de sua patrulha noturna pelo céu e pelas ruas da cidade.
Ferdinando se permitia a uma dose diária de  lembranças dos tempos em que toda aquela conjuntura da vida cotidiana era mais apreciada. Tempos que se projetam em seus olhos tal como um filme, só que real. Com direito a cheiro, a sabor, e a promessas de uma segunda parte nunca cumprida, nunca finalizada.
Como filosofo que é por formação, ele confronta sempre ali e sempre a noite suas dúvidas e devaneios a respeito do mundo. É naquele horizonte hora tão longe e interminável que ele lança suas perguntas, ele grita em pensamento e aguarda sem esperança suas respostas.
A morte e a vida, o valor de cada um e o seu papel neste mundo. Seus anseios, seus pecados. Sua credibilidade, bondade e crueldade. Seus limites! Ferdinando não enlouquece porque consegue ao fim ponderar, e aceita, como um jovem sensato que o é, que muitas coisas vão continuar sem resposta. A exemplo disso a violência, a intolerância, o desrespeito e o desamor. Ele questiona se estar trilhando o caminho certo. Pensa as vezes que possa ser egoísta, mas aceita esse egoismo porque se  for egoismo ou não, isso o faz bem.
Ferdinando julga e se intima a responder : - mereço tudo isso? Não sabe! Mas assim como aceita a ausência de respostas para suas perguntas, aceita também de bom grado o amor ofertado.
Ele percebeu quando a porta da sala foi aberta, mas preferiu fingir que não. Ao invés de perguntar quem era, Ferdinando acariciou suavemente com o polegar o anel posto em seu quarto dedo da mão esquerda.
Suas perguntas estavam findas. Não importavam mais!
 Para perguntas difíceis, talvez o tempo. Para o amor ofertado, o agora, o hoje!
As mãos  de Marcelo percorreram a cintura de Ferdinando puxando-o para um abraço, e  sua boca pousou no rosto dele enquanto seus lábios diziam boa noite.



 
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