terça-feira, 24 de setembro de 2013

Verdades...




A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.




                                                                                                           Vinícius de Moraes

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Simplesmente Nós




Era uma tarde absolutamente formidável em um pequeno, mas aconchegante chalé no campo. A fumaça saindo pela chaminé anunciava um fim de tarde chuvoso e o início de uma noite estrelada e fria com direito a pequenos flocos de gelo sobre a grama.
Sobre a mesa de madeira, na cozinha totalmente campestre e artesanal com fogão a lenha estava à caneca de café com diversos bolos e doces caseiros trazidos da pequena cidade onde o turismo e a gastronomia o tornavam sua maior fonte de renda.
A vida deles era incomparável com relação à agitação das grandes cidades podia-se ouvir o cantarolar dos pássaros, o agitar do vento sobre as arvores de folhas secas e nós ali sentados na sala sobre o tapete, recostados sobre a parede de madeira.
Eu digo: Muitas perguntas em mente!?
Eu mesmo respondo em meus pensamentos: Várias!
Mas dizer algo poderia estragar os olhares, os sorrisos, os gestos que descreviam aquele momento. Jamais!
Não, não era um encontro fútil, não era um casal em busca de aventura e não, não estávamos à busca total da felicidade, pois a felicidade encontrava-se ali no silencio.
O que era para ser só uma viagem se tornou um reencontro ao passado, passado este que nunca foi esquecido e que foi relembrado no momento em que me vi sentada na sala em frente à lareira. O aconchego se tornou naquele momento o nosso maior companheiro, naquela hora e sem dizer nenhuma palavra o abraço se tornou inevitável. O silêncio e a preguiça adentravam a noite e o egoísmo já não fazia mais parte de nós.
Ali mesmo aconchegados à frente da lareira dormimos sem que quaisquer outros pensamentos pudessem fazer daquele momento algo fútil e carnal. Minhas mãos percorreram seus braços e por fim chegaram a suas mãos quentes.
A vida naquele momento parecia ter estacionada, fiquei ali deitada por mais alguns instantes me perguntando se merecia estar ali apesar de todos os devaneios que a vida insistiu em trazer a memória.
Olhei para o lado e admirei por alguns instantes seu sono leve, beijei levemente seu pescoço e levantei devagar para não o despertar. Fui até a cozinha preparei uma grande xícara de chocolate quente e sentei-me no balanço que havia na varanda, com uma manta e apreciei o soar do vento sobre meus ouvidos...
Ao longe se podiam observar outros chalés cobertos por folhas secas ao redor da entrada fazendo daquela paisagem campestre algo encantador aos meus olhos!
Voltei à cozinha e me recostei sobre a pia, e admirada com a paisagem fotografada em meu pensamento, deixei que fluíssem novas ideias, senti passar sobre minha cintura mãos quentes e braços totalmente acolhedores, nós ali nos contentando com a paz que ressoava sobre o chalé vazio. O silêncio adentrava cada cômodo, contudo nos sentíamos tão em paz, tão completos que nada mais fazia falta.
Estar ali nunca foi tão especial para nós, abraçados na cozinha, olhares tímidos, conversas ao ouvido, risadas singelas e um beijo para consumar a noite, tudo isto sou eu, você...somos simplesmente nós.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Físico ou Abstrato - parte 7.



Ventava muito aquela a tarde e ao longe o sol se preparava para beijar o mar. Eu estava de pé no pier as margens do rio Órion. O estranho homem que me dera um livro maldito de presente e me salvara do abismo da morte marcou comigo as cinco da tarde, disse que precisávamos esclarecer algumas coisas e começar os "trabalhos de reconstrução". Faltavam trés minutos para as cinco horas!
Naquele curto espaço de tempo tentei organizar os últimos dias, queria entender como o estranho noturno, como me acostumara a chama-lo, sábia tanto sobre minha vida. O  livro, quem o tinha escrito? Pudera alguém ter me observado, cada passo dado nos últimos dez anos? Mas qual seria o propósito? Vingança? Talvez meu marido tivesse descoberto tudo e o tal estranho fosse um detetive particular, contratado por ele, parte de uma vingança bem elaborada.
- Pare de pensar besteiras Marcela! - Irrompeu uma voz atrás de mim. Era ele!
- Seu marido pensa que você está morta. Assim como suas filhas e toda sua família também acreditam. Afinal de contas esse foi o plano não? Foi assim que você decidiu fazer, e foi isso o que você fez. Você  está morta para todos eles Marcela!
 Naquele instante o lado esquerdo do meu peito palpitava e o ar até então abundante se extinguiu. O estranho noturno estava bem atrás de mim e sábia perfeitamente o que eu tinha pensado milésimos atrás. Pensado! Eu não disse uma palavra se quer, apenas pensei no mais profundo e intrínseco lugar de minha consciência. Por fim, percebi o quanto as palavras do estranho me apunhalaram. Morta! Eu estava morta. Uma morte que eu mesma havia forjado.

- Vamos Marcela, deixe logo de pensar em detalhes tão superficiais. - o homem deu alguns passos ficando lado a lado comigo, mas não olhou para mim, seus olhos e sua atenção estavam voltados para o mar. - Serei breve e claro quanto ao que tem que ser feito.
- Recuperei a consciência e comecei a falar.
- Mas como assim será breve? Preciso de respostas! Quem é você por Deus? O que quer de mim? E como sabe no que estou pensando? Por favor me responda. Deixe de me perturbar! - Na ultima frase eu já tinha perdido o medo e comecei a gritar, mas fui interrompida, ele não tolerou minha petulância.

Chega! - O homem estranho dos últimos dias estava alterado, seus olhos saltavam das órbitas e as veias do seu pescoço estava pulsantes, inchadas e vermelhas e isso  me assustou. Respirei fundo, contive o choro e me calei.
- Marcela, - O estranho tinha voltado instantaneamente a sua forma original. - Eu não lhe devo satisfação alguma, é você quem deve se justificar diante daqueles que você machucou. O que tenho a propor é uma chance, um ultimo dever que você tem para com a sua família. Por a caso sabe como eles estão? Sabe afinal qual rumo tomaram suas filhas? Seu marido?
Não Marcela, você não sabe! E tudo isso por que? Porque você simplesmente os abandonou.

Aquela homem trouxe de volta uma verdade irrefutável. Eu abandonei minha família sim. Mas se continuei distante foi para não machuca-los ainda mais, talvez distante eu pudesse dar a eles uma segunda chance, uma outra vida, sem a minha interferência.
Mas naquele momento apenas uma coisa preenchia a minha total atenção. Eu tinha um ultimo dever para com eles, uma ultima chance, mas qual?
Me virei de impeto para o estranho ao meu lado, ele também tirou os olhos do mar e me olhou na alma, seu olhar me causava medo e me repreendia a qualquer minimo movimento que fosse, mas tive força e busquei coragem para perguntar.

- Qual? Qual é o meu ultimo dever?



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