sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Feche os olhos e diga tudo!



No escuro a poesia flui... então eu fecho os olhos
Eu segurava uma faca, precisava SENTIR porque sentindo eu podia SER.
De joelhos, risquei meu braço esquerdo e fiz um corte medroso e tímido. O sangue escorreu singelo e livre.
Eu precisava de mais, o corte no antebraço foi profundo, arrastei a faca quase até o pulso e parei, parcialmente satisfeito. Meu sangue era um criminoso do gueto, corria louco, descarado e livre.

Hoje pela manhã, indo para o trabalho meu inconsciente resmungou da minha falta de expressão. Adquiri nas ultimas semanas uma postura quieta, resguardada. Chego as seis do trabalho, tomo um banho, janto e vou dormir antes das dez. Fora do comum pro cara que dorme depois das duas da manhã mesmo em dias de aula. Inverso demais pra quem estava correndo quarenta minutos anoite pelo bairro. Os livros se encheram de poeira, os filmes aguardam petrificados na estante e eu sucumbi quando mais precisei gritar. Então hoje, quando sai do metrô e a brisa da manhã de quinta feira em frente a estação pinheiros me estapeou, eu sorri. Bobo, sozinho, no meio da rua.
Me lembrei da Sociedade dos Poetas Mortos, exatamente da cena em que o aluno diz ao professor que não fez o dever de casa, que naquela ocasião era escrever uma poesia. O menino justificou não saber escrever poesias, não conseguiu. O professor, mestre Robin Willians o chamou a frente da classe e lhe tapou os olhos. - Imagine que você está sozinho nesta sala, só você e tudo que o está sentindo: seus medos, felicidades, anseios, diga tudo, vamos. Diga! Grite! Ponha pra fora as suas dores, os seus demônios. O garoto fez poesia. De olhos fechados ele enxergava melhor.

Meu inconsciente  resgatou esta cena para me convidar a também fechar os olhos e fazer poesia com as minhas preocupações, porque não sei cantar e não atuo, mas escrever eu aprendi, um pouco.
As preocupações, mesmo que mundanas, sim, mundanas, porque eu tenho onde dormir, o que comer, e não estou no corredor de um hospital. Minha família está bem e o sol tem brilhado todos os dias. As minhas preocupações mundanas, assim como as suas, as vezes nos quer vencer, se apoiam feito um bixo preguiça pesado e corpulento, bonitinho mas com unhas afiadas e grandes. Fica bem acima de nossos ombros dando a nós uma postura curvada, não de humildade, mas de cansaço, fartos e tolos.
Este ano começou estranho, ainda escrevo 2015 nos formulários e não me recordo exatamente em que momento trocamos o 5 pelo 6, acho que fiquei lá, ou fui trazido até aqui adormecido.
Não quero dizer com isso que o tempo é louco, passou rápido e coisa e tal, não. É que meu relógio biológico tá assim, desalinhado. - Espera, preciso amarrar meu cadarço, diz ae pro motorista esperar, não posso perder a aula, é estatística e tenho dificuldades. É tipo isso, tipo assim que estou.
Eu também tenho sentido medo, andado confuso com algumas decisões que tomei, mas poxa, eu tomei decisões e isso é grande coisa. Tenho me dito isso todos os dias. EU ESCOLHI ESTAR ONDE ESTOU! Não me arrependo, mas estou confuso e isso é doido porque essa confusão que me incomoda, angustia e enlouquece também me impulsiona, me faz pensar e repensar uma porrada de coisas fundamentais em minha vida. Sinto cheiro de maturidade, e como sempre ela vem sem pedir licença, sem poupar nada, bruta, mal criada, imponente e necessária.

Eu queria saber cantar tão alto, belo e em notas agudas, estrondosas, como um coral de igreja protestante em um domingo pela manhã com suas canções capazes de converter qualquer pagão, tamanha força e poder que elas irradiam. Por hora, eu apenas escrevo.




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